29 DE MARÇO - DOMINGO DE RAMOS - ANO A
As celebrações e leituras deste domingo estão polarizadas, certamente, por duas ideias maiores e contrastantes: por um lado, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, aclamado como Rei e o Bendito enviado de Deus; por outro lado, a impressionante tragédia da sua prisão, condenação e morte. Estamos verdadeiramente no centro do Mistério de Deus, do Deus de Jesus, do Deus que se revela na Bíblia, do nosso Deus: a sua grandeza mostra-se na vulnerabilidade, o seu amor revela-se na entrega, o seu poder mostra-se na obediência. E qualquer outra imagem de Deus haveria que ser recusada como idolátrica.
Através do profeta Isaías, Jesus foi prefigurado neste personagem do Antigo Testamento – o Servo, o Servo Sofredor (que nos aparece nos capítulos 40-55 de Isaías). Ali se nos revela Alguém que, enviado por Deus e vivendo apenas no serviço e na bondade, é também coerente e suficientemente corajoso para resistir a todas as perseguições e males de que é injustamente vítima. Foi isso que aconteceu, de facto, com Jesus, é isso que acontece com tantos mártires e santos da história da humanidade.
A segunda leitura, um profundo texto conhecido como o hino da ‘Kenosis’ – palavra grega que significa ‘abaixamento’ ou ‘humilhação’, afirma: Jesus, que era Deus, não se valeu dessa condição, mas fez-se homem e, como homem, fez aquilo que poucos homens são capazes de fazer! Passou a vida a fazer o bem, a servir os outros, e foi capaz de sofrer só para ajudar e libertar a todos. Que maravilhoso – ainda que difícil – programa de vida!
E no evangelho de Mateus temos o longo texto da Paixão (que será novamente lido, mesmo se noutro evangelista, na 6ªfeira Santa). Olhando Jesus, em todo este processo, na prisão, condenação, a caminho do calvário, na crucifixão e morte, ficamos certamente perturbados e perguntamo-nos porquê tinha tudo aquilo de acontecer… Sentimos também, intimamente, que há ali uma injustiça, que há ali muita maldade para com um homem que apenas fizera o bem na sua vida. Como cristãos, sabemos, pela fé, que Deus Pai o ressuscitou. Mas, por agora, nada sabemos disso: apenas vemos como um homem maravilhoso é assassinado, Ele que só fizera o bem e, mesmo nos últimos momentos da vida, só pensa nos outros: nos salteadores crucificados a seu lado, na sua mãe e seus discípulos, nos que o crucificam e zombam e lançam blasfémias… Meditemos com a ajuda das palavras de um coral maravilhoso da ‘Paixão de S.João’, de Bach: «Teve cuidado de tudo naqueles últimos momentos. Pensou na sua mãe e obteve para ela uma protecção. Ó homem, faz o bem, ama a Deus e ao teu semelhante, depois morre sem pena, não te inquietes mais».
PREPARAR A PÁSCOA DO NOSSO MUNDO
1. É muito difícil darmo-nos conta da evidência. Para ver o que vemos seria necessário mudar os olhos, mudar o coração. O mundo que temos é um mundo descriado.
Segundo Frederico Lourenço, «O livro que abre a Bíblia é um dos textos mais extraordinários da cultura humana. Para lá das questões complexas atinentes à sua origem e autoria, dificilmente encontramos, na literatura mundial, uma narrativa mais fascinante e mais arrebatadora do que a contada no Livro de Génesis. (…) Génesis 1 oferece um relato optimista da criação, em que Deus cria um mundo belo e bom. O homem e a mulher são criados em simultâneo, à imagem de Deus. Génesis 2, por outro lado, apresenta uma narrativa não só incompatível com a anterior (a mulher é criada depois do homem), mas também menos optimista. O intuito em Génesis 2-3 é propor uma etiologia para aquilo que a observação empírica do mundo confirma: o mundo não é só belo e bom (como em Génesis 1), porque nele também existe o mal»[1]. Tem razão António Lobo Antunes: a vida humana é um mistério[2].
Em que mundo estamos?
Trump, Netanyahu, Putin e outros fazem da força o único argumento válido para governar o mundo, melhor dito, desgovernar o mundo. Essa atitude abre as portas para a barbárie. Os cristãos não podem fechar os olhos, como se temessem ser contaminados ou prejudicar a sua missão apostólica. Proclamar o Reino implica trabalhar pela paz, condenar a violência, exigir respeito pela dignidade humana e cuidar da nossa casa comum. As guerras de Putin, Trump e Netanyahu não são “guerras justas”, que não existem. São guerras inspiradas pela antiga mentalidade colonial, segundo a qual é legítimo saquear a riqueza alheia. Por trás de todas as guerras em curso, existe apenas um desejo obsceno de controlar petróleo, gás, minerais e rotas comerciais[3].
2. O Papa Leão XIV, na sua mensagem do Angelus do Domingo passado, a propósito da narrativa simbólica da cura de um pobre cego de nascença (Jo 9,1-41), lembra que, «enquanto nós estávamos nas trevas, enquanto a humanidade caminhava nas trevas, Deus deu-nos o seu Filho como luz do mundo, para abrir os olhos dos cegos e iluminar as nossas vidas.
«De facto, podemos dizer que todos nascemos cegos. Por nós mesmos não conseguimos enxergar toda a profundidade do mistério da vida. Por isso, Deus fez-se carne em Jesus, para que o barro da nossa humanidade, moldado pelo sopro da sua graça, recebesse uma nova luz, que nos torna capazes de, finalmente e em verdade, ver a Deus, os outros e nós mesmos.
«Irmãos e irmãs, nós também, curados pelo amor de Cristo, somos chamados a viver um cristianismo de olhos bem abertos. A fé não é um acto cego, uma renúncia à razão, uma disposição de certa convicção religiosa que nos leva a desviar o olhar do mundo. Pelo contrário, a fé ajuda-nos a ver o ponto de vista de Jesus, com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver. Pede-nos que abramos os olhos, como ele fez, sobretudo para os sofrimentos dos outros e as feridas do mundo.
«Hoje, em particular, diante das muitas questões do coração humano e das situações dramáticas de injustiça, violência e sofrimento que marcam o nosso tempo, precisamos de uma fé desperta, atenta e profética que nos abra os olhos para as trevas do mundo e leve a luz do Evangelho através de um compromisso com a paz, a justiça e a solidariedade».
Seria bom reler o diálogo entre o filósofo Jürgen Habermas – que acaba de nos deixar – e Joseph Ratzinger, em Munique (2004), sobre a origem dos valores universais. Habermas defendia que eles eram produto de processos deliberativos e não de um mandato sobrenatural. Ratzinger apontou que essa abordagem ocultava o perigo de tornar as maiorias a única fonte de legitimidade, o que não garantia o respeito incondicional da dignidade humana. Ambos concluíram o encontro, reconhecendo que as expressões da fé e da razão devem autocriticar-se para evitar cair na intolerância.
Para aqueles que não têm fé, Ratzinger e Habermas são agora apenas uma lembrança na consciência colectiva. Aqueles de nós que ainda nutrem a esperança de um amanhã, além do tempo e do espaço, acreditam que o filósofo e o teólogo podem continuar o seu diálogo, sem as limitações impostas pela implacável biologia.
3. Consta que o Papa está a finalizar uma Encíclica com o nome Magnifica Humanitas.
Certos meios tradicionalistas esperavam e lutavam, com grandes recursos financeiros, para que, a seguir ao Papa Francisco, fosse escolhido outro de uma linha e uma prática que negassem a herança magnífica de Bergoglio. Aconteceu precisamente o contrário com a eleição do Papa Leão XIV. Desde a primeira hora, com um estilo próprio, afirmou e praticou um caminho nos passos de Francisco.
Algumas correntes tradicionalistas não se deram por vencidas. Renovaram os seus esforços e tentativas para mostrar que o Vaticano e a sua orientação eram obra do Anticristo. Era urgente atacar o Vaticano no coração de Roma. Pensaram e tentaram até manipular – sem sucesso – a Universidade de São Tomás de Aquino, Angelicum, onde tinha sido doutorado Leão XIV.
Segundo José Lourenzo, um jornalista bem informado, o tecnoligarca Peter Thiel, que financia Trump, teria chegado a Roma com suas teorias sobre o Anticristo. Thiel, fundador da poderosa empresa de análise de dados que agora está a ser usada na política de deportação em massa do seu amigo Donald Trump, é também um dos maiores opositores de Leão XIV, assim como o foi de Francisco, porque eles representam tudo o que se opõe aos seus interesses[4].
A celebração da Eucaristia envolve sempre a chamada Liturgia da Palavra Bíblica. Tem razão Santo Agostinho ao dizer que é impróprio afirmar que os tempos litúrgicos são três: passado, presente e futuro. Talvez fosse mais adequado dizer: presente das coisas passadas, presente das presentes e presente das futuras. Para São Tomás de Aquino, o Mistério Pascal não é sobre o passado. É um passado que atinge, de forma presencial, todos os tempos e lugares[5].
Hoje é o V Domingo da Quaresma. O texto do Evangelho é de S. João. É um texto difícil, mas é preciso estar atento, respeitando e aprofundando o estilo do autor. É habitual falar da Palavra de Deus. É uma expressão verdadeiramente bíblica. Não devemos, porém, cair no ridículo de imaginar Deus a abrir a boca e a discursar como fazem os autores do Antigo e Novo Testamentos. O que importa é acolher a mensagem, o sentido dos textos porque é sempre Palavra de Deus em palavras humanas, segundo o estilo e a construção literária de cada um dos autores.
No Novo Testamento, temos várias narrativas de “ressurreições” (ou reanimações). Todas elas existem para nos ajudar a preparar a Páscoa de Cristo, nossa Páscoa.
Fr. Bento Domingues in Público, 22/3/2026
Novo vídeo com o testemunho do Fr. José Nunes, OP nos 40 anos da presença dominicana em Angola (Waku-Kungo).