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Comentário às Leituras Dominicais (Julho 2018) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Julho 2018)      por fr. José Nunes, op - Instituto S. Tomás de Aquino

 

1 Julho – XIII Domingo do Tempo Comum – Ano B

As leituras deste domingo ajudam-nos a conhecer um pouco melhor «quem é o nosso Deus», desvendando-nos Alguém que nada tem a ver com a caricatura denunciada por tantos pensadores humanistas, ateus ou agnósticos – com quem, contudo, não interessa polemizar.

E desde logo, no livro da Sabedoria, temos uma bela ‘carta de apresentação’ do nosso Deus: dele não vem a morte, nem a perdição, nem o mal, nem o veneno, nem a injustiça…! Deus é bom. E o ser humano também foi criado por Deus como bom, justamente «à sua imagem e semelhança».

Quanto à passagem da carta aos coríntios, ela refere-se à circunstância em que a comunidade de Jerusalém passou por fomes e grandes dificuldades materiais. Então, São Paulo promoveu uma colecta noutras comunidades (neste caso na cidade grega de Corinto) para ir em ajuda solidária dos que na primeira Igreja-mãe padeciam. O cristianismo, portanto, não é uma religião de ‘anjos’ ou desencarnada. Ser cristão não é só rezar: é estar atento às realidades materiais e ajudar quem precisa. E fazê-lo solidariamente, não por ‘caridadezinha’… Paulo lembra-nos que devemos cultivar e buscar a igualdade, justamente porque todos os bens criados são pertença de todos. O único verdadeiro proprietário é Deus, nós somos apenas administradores e temos de velar para que ninguém passe necessidades.

No trecho do evangelho de Marcos narram-se dois milagres de Jesus. Por isso, aqui se retoma a ideia da primeira leitura: para Deus, o sofrimento ou a perdição dos homens é inaceitável e, nesse sentido, Jesus cura, alivia, liberta. Deus está atento às misérias de cada um, individualmente, e de todos, comunitariamente: é belo e impressionante ver como Ele está com uma enorme multidão mas sente o ‘toque’ de uma pessoa só…

Os milagres de Jesus, afinal, lembram a tarefa de toda a Igreja em todos os tempos e lugares: também nós havemos de fazer milagres, isto é, a nossa missão é salvar tudo e todos, todo o Homem e o Homem todo.

 

 

02/07/2018 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - Instituto S. Tomás de Aquino


Não há milagres? (2)

 

1. O mal resulta da ausência de um bem que deveria existir, seja na natureza, seja no agir humano. A serenidade desta lucidez metafísica tem um inconveniente: ou é linguagem de robot para robots ou um insulto a quem sofre. As ciências estudam as causas desses disfuncionamentos, os processos de os evitar e os remédios da sua cura. Dizem-me que a imortalidade está no horizonte lógico da ciência. A promessa da longevidade e da juventude ilimitadas vai de encontro ao nosso desejo de viver bem, com saúde e sem envelhecimento. Esta conjectura agradável não pode evitar interrogações de carácter social, político, económico, cultural e ético. Os pós-humanistas julgam que essa hora chegará mais depressa do que se imagina. Até lá, mais vale encarar o facto de uma existência limitada que privilegia os laços da amizade e da solidariedade efectiva. A história do sofrimento dos inocentes deita para o caixote do lixo qualquer especulação sobre o mal.

Repete-se, desde Epicuro (séc. III a. C), dos modos mais diversos, que Deus e o mal não podem coabitar. O mal é um escândalo e um problema para qualquer ser humano, mas especialmente para quem é religioso. Um mundo com mal e sem Deus talvez fosse menos problemático, pois ou Deus quer eliminar o mal e não pode, ou pode e não quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer é mau.

Nunca me impressionou muito essa conversa centrada num Deus encurralado pela lógica totalitária, sem espaço para a responsabilidade humana. 

O que mais me espanta é a nossa falta de juízo e de bondade. Somos testemunhas de guerras horrorosas. Sabemos que, na maioria dos casos, foram e são, a todos os níveis, frutos do desejo de pessoas e grupos possessos da vontade de dominação económica, política, cultural e religiosa. Em última análise, a resposta à graça da livre conversão à boa e imaginativa hierarquização dos nossos desejos pode ajudar a diminuir a loucura mundana. Encarar a vida como o desenvolvimento de todos os talentos para ajudar, de modo competente, as capacidades dos que não tiveram oportunidades é, talvez, um bom caminho para a nova civilização proposta pelo Papa Francisco. Para ele, o mal não é um problema teórico, mas um desafio a enfrentar mediante a praxis humana solidária, cristã. Daí nasce a fonte divina e humana dos verdadeiros milagres.

2. Diz-se que não há testemunhos do riso de Jesus, mas abundam as referências ao seu requintado humor. O texto escolhido para a liturgia do Domingo passado [1] e o proposto para hoje [2], colocam a questão dos milagres de forma tão pouco convencional que importa analisar.

No primeiro, numa única narrativa, entre o trágico e o cómico, acontecem dois “milagres” muito improváveis. Segundo o Novo Testamento, o grupo dos fariseus – sobretudo os chefes das sinagogas – não via com bons olhos as inovações do Nazareno. Ora, nesse texto, é precisamente um chefe de sinagoga, chamado Jairo, a pedir, com insistência, a intervenção de Jesus para salvar a sua filha que estava a morrer: vem impor-lhe as mãos para que se salve e viva. Jesus não se fez rogado e acompanhou o pai da criança, seguido de grande multidão que o apertava por todos os lados. Entretanto, uma mulher extremamente doente que, há doze anos, sofria muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens sem ter obtido qualquer resultado, antes piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-lhe no manto, dizendo consigo: se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada. E ficou.

Não foi um gesto supersticioso, foi um puro acto de fé, isto é, de confiança absoluta.

É verdade que a narrativa é cómica: quando Jesus pergunta quem me tocou, apertado pela multidão, os discípulos acham a pergunta descabida. De facto, Jesus sentiu que algo aconteceu no seu próprio corpo e a mulher, assustada e a tremer pelo que lhe tinha acontecido, disse a verdade. Jesus nem sequer diz que a curou: minha filha a tua fé te salvou. Ao dizer isto, Jesus exprimiu o mais íntimo da relação entre Deus e o ser humano. A coincidência de dois movimentos: o desejo de Jesus de curar – era a sua maneira de viver – e o desejo da mulher de ser curada. A salvação realiza-se no encontro desses dois movimentos. A fé salva porque é a entrega confiante ao amor que a precede. É o abraço de dois desejos: de Deus e da criatura. É, por isso, um exercício de liberdade. Deus deseja, mas não obriga ninguém a reconhecê-lo nos seus sinais.

Quando Jesus diz à mulher foi a tua fé que te salvou, até parece que ele não fez nada. Não é verdade. Como diz o narrador, do corpo de Jesus saiu uma energia real que ele próprio estranhou. Essa graça encontrou-se com um desejo ardente e desesperado. Sem este desejo da mulher Jesus não podia nada.

3. No meio da confusão, vem a notícia da casa de Jairo: a tua filha morreu, não incomodes mais o Mestre.

Jesus diz ao chefe da sinagoga: Não temas, basta que tenhas fé. Seguido de Pedro, Tiago e João, vendo grande alvoroço com gente que chorava e gritava, atreve-se a uma provocação que até parecia de mau gosto: a menina não morreu, está a dormir. Riram-se dele. Levando consigo o pai e os referidos discípulos, entrou no local onde ela jazia. Pegou-lhe na mão e disse: Menina, eu te ordeno, levanta-te. Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes, insistentemente, que ninguém soubesse do caso e mandou dar-lhe de comer.

Noutros casos, as pessoas que reconheciam em Jesus uma energia estranha atribuíam-na a uma possessão diabólica porque ele não era um observante de convenções religiosas [3].

É essa a questão deste Domingo. Jesus foi à sua terra acompanhado dos discípulos. Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes interrogavam-se acerca da origem das suas palavras e acções prodigiosas, mas ficavam de fora. Porque seria? O conhecimento do estatuto modesto deste carpinteiro e da sua numerosa família secava qualquer interrogação de fundo. O conhecimento que tinham de Jesus era uma ignorância acerca da significação inovadora do que Ele andava a fazer e a dizer. Ao preferirem continuar num ram-ram sem surpresas e sem novos horizontes, ficaram onde sempre estiveram. O ritual foi cumprido e nada aconteceu. Ao contrário do Domingo passado, Jesus ficou espantado com a falta de fé daquela gente.

Nas celebrações actuais da Eucaristia, para que algo aconteça de inovador, é preciso deixar-se convocar para a participação na reforma pessoal, da Igreja e da sociedade. Sem esse desejo activo, Cristo nada pode fazer. Os rituais são cumpridos, mas se as instituições da Igreja continuarem no seu ram-ram e a ignorar os desafios do Papa Francisco, que se pode esperar?

Alguns julgam-se heróis da mudança pelo regresso ao que julgam ser a Santa Missa de Sempre, que nunca existiu como missa de sempre. Andam para trás para se realizarem como estátuas de sal, fruto de uma incurável miopia [4].

 

Fr. Bento Domingues                                                                           in Público, 8/7/2018

 

[1] Mc 5, 21-43

[2] Mc 6, 1-6

[3] Mc 3

[4] Jo 9

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