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Comentário às Leituras Dominicais (Fev. 2023) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Fev. 2023)      por fr. José Nunes, op - ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino

 
12 Fevereiro – 6º Domingo do Tempo Comum - Ano A

 

Um importante filósofo existencialista do século passado – J.P. Sartre – escreveu um dia: «nós somos livres para tudo menos para ser livres». De facto, o ser humano nasce livre e é livre de fazer as suas escolhas. E apesar de ser condicionado por muitas circunstâncias externas, não consegue deixar de ser livre… sempre tem alguma possibilidade de opção. Vem tudo isto a propósito da leitura de hoje do livro do Eclesiástico, um dos livros bíblicos sapienciais, que afirma termos diante de nós a vida e a morte, o fogo e a água, e Deus não nos obrigar a uma inclinação por qualquer destes elementos ou possibilidades. Ora bem, se somos livres, então somos desafiados a escolher com responsabilidade e a medir bem as consequências das nossas opções quer para nós próprios quer para com tudo e todos os que nos rodeiam.

S.Paulo, no trecho da carta aos Coríntios da liturgia de hoje, dá continuidade ao pensamento do Eclesiástico: o cristão é habitado por uma sabedoria que não é bem a sabedoria mundana e pode e deve ser consequente com essa sabedoria para fazer escolhas sábias na sua vida. Enquanto muitos não entenderam o significado da presença de Deus no mundo e não foram capazes de discernir em Jesus o Messias, o enviado de Deus, e até O crucificaram, os cristãos são aqueles que compreenderam e aceitaram a pessoa de Jesus e do seu evangelho, e viram aí a maior sabedoria para orientar as suas vidas.

O evangelho de hoje é pautado por duas afirmações principais: a primeira é a de que Jesus não veio abolir a lei e os profetas do Antigo Testamento; a segunda é a repetição, por 4 vezes, da expressão «disseram-vos mas Eu digo-vos». Estas duas frases colocam-nos diante de duas questões bem importantes: a relação do Antigo Testamento com o Novo Testamento e, simultaneamente, a relação de Jesus com a sua cultura judaica. Certamente que o Novo Testamento é continuação do Antigo, não o recusa, mas a verdade é que introduz algumas rupturas importantes: purifica a imagem de Deus e pede mais coerência nas acções e interioridade nas motivações dos seres humanos. E por isso Jesus, assumindo também Ele o Antigo Testamento e a cultura judaica da lei de Moisés, introduz rupturas e vai contra essa sua cultura em muitos aspectos, justamente aqueles em que a sua perspectiva humanista e humanizadora obriga a ultrapassar leis e costumes socio-político-religiosos bem opressores.

06/02/2023 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino


Luz do Mundo e Sal da Terra

 


  
1. Para alguns meios de comunicação, a religião em Portugal deixou de ser clandestina. Não são apenas os noticiários sobre as JMJ, como veremos. Existem também estudos fundamentais, como o coordenado por Alfredo Teixeira, sobre a Religião à luz das ciências humanas[1].
 
A liturgia de hoje abre com uma proclamação de Isaías que destaca o que deve ser a luz das religiões: «Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa ao que não tem que vestir e não voltes as costas ao teu semelhante. Então, a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar»[2].
 
É assim que nos podemos tornar sal da terra, como disse Jesus segundo o Evangelho de S. Mateus. Mas, se o sal perder a força, não serve para nada senão para ser lançado fora e pisado. Vós sois a luz do mundo. Não se acende uma lâmpada para a esconder, mas para a colocar sobre o candelabro que ilumina toda a casa. É assim que deve brilhar a vossa luz para que, vendo as vossas boas obras, os seres humanos glorifiquem o vosso Pai que ninguém vê. São as vossas boas obras que falam da sua presença[3].
 
O conhecido teólogo russo, P. Evdokimov (1901-1970), dizia que «os cristãos têm feito todo o possível para esterilizar o Evangelho; parece que o submergiram num líquido neutralizante»[4].
 
As JMJ serão uma luz para a sociedade de todos os continentes? São tantas as discussões sobre as questões económicas que levanta, num país pobre e cheio de carências a muitos níveis da vida colectiva, que as interrogações sobre o alcance cristão das JMJ têm sido muito pouco debatidas.
 
2. Qual terá sido o percurso sinodal da preparação destas Jornadas? Deveriam inscrever-se no processo desencadeado, em todo o mundo católico, por esta iniciativa do Papa Francisco para dar continuidade à pergunta que vem do Vaticano II: Igreja, que dizes de ti mesma? Já passou por várias etapas. Começou pelas paróquias, pelos movimentos, pelas dioceses de todo o mundo. O seu intuito era de se interrogar a partir das bases, para sentir o que elas pensavam e propõem para a Igreja. O resultado desse questionamento foi entregue às dioceses e às Conferências Episcopais de cada país, cujos resultados foram enviados ao Secretariado Geral do Sínodo. Está em curso a etapa continental antes da Reunião Sinodal em Outubro 2023, em Roma.
 
Dito isto, já foram apresentados os ganhos e perdas económicos das JMJ nos diversos países que as acolheram. Não sei que lições foram tiradas para medir o que era e não era possível realizar em Portugal, mas seria continuar apenas no plano económico e político. Não pode ser essa a perspectiva cristã das Jornadas Mundiais. Surge a pergunta: já terão sido avaliados os frutos, à luz do Evangelho, colhidos nesse grande acontecimento – a nível local e mundial – na reanimação das comunidades cristãs segundo o caminho sinodal multifacetado?
 
Dirão, com verdade, que são interrogações de um ignorante que não terá acompanhado suficientemente a preparação das JMJ desde o início.
 
As minhas interrogações nada têm a ver com a desconfiança e a hostilidade, manifestada por alguns bispos e cardeais, à realização do Sínodo.
 
3. A tão aguardada peregrinação de paz e reconciliação do Papa Francisco à República Democrática do Congo já aconteceu. Também já me comovi com o seu extraordinário discurso no Encontro com as Autoridades, a Sociedade civil e o Corpo Diplomático em Kinshasa.
 
Este discurso, várias vezes aplaudido, teve como ritmo, não apenas a realidade e metáfora do diamante, mas também o seu apelo: «tirem as mãos da República Democrática do Congo, tirem as mãos da África! Basta com este sufocar a África: não é uma mina para explorar, nem uma terra para saquear. Que a África seja protagonista do seu destino! Que o mundo recorde os desastres perpetrados ao longo dos séculos em prejuízo das populações locais, e não esqueça este país e este continente. Que a África, sorriso e esperança do mundo, conte mais: fale-se mais sobre ela, tenha mais peso e representatividade entre as Nações!».
 
Esta declaração vem a seguir a uma evocação histórica: «é trágico que estes lugares, e o continente africano em geral, padeçam ainda de várias formas de exploração. Existe aquele lema que vem do inconsciente de muitas culturas e de muitas pessoas: África deve ser explorada. Isto é terrível! De facto, depois da exploração política, desencadeou-se um colonialismo económico igualmente escravizador».
 
Em consonância com a própria liturgia dominical, o Papa refere-se a um célebre filósofo e teólogo africano: «Na sociedade, muitas vezes o que obscurece a luz do bem são as trevas da injustiça e da corrupção. Já há séculos se perguntava Santo Agostinho, nascido neste continente: Se não se respeita a justiça, que são os Estados senão grandes bandos de ladrões?[5] Deus está do lado de quem tem fome e sede de justiça (cf. Mt 5, 6). É preciso não se cansar de promover, em cada sector, o direito e a equidade contrastando a impunidade e a manipulação das leis e da informação».
 
Não larga, na sua intervenção, a eficácia da simbólica do diamante abundante naquele país: «Um diamante sai da terra genuíno, mas em estado bruto, carecendo de ser trabalhado. Assim, também os diamantes mais preciosos da terra congolesa, que são os filhos desta nação, devem poder usufruir de válidas oportunidades educativas, que lhes permitam fazer frutificar plenamente os brilhantes talentos que possuem. A educação é fundamental: é o caminho para o futuro, o caminho a percorrer para se alcançar a plena liberdade deste país e do continente africano. É urgente investir nela para preparar sociedades que só serão consolidadas se bem instruídas, só serão autónomas se plenamente conscientes das suas potencialidades e capazes de as desenvolver com responsabilidade e perseverança. Mas há muitas crianças que não vão à escola: quantas, em vez de receberem uma digna instrução, são exploradas! Muitas morrem, sujeitas a trabalhos escravizadores nas minas. Não se poupem esforços para denunciar o flagelo do trabalho infantil e acabar com ele. Quantas adolescentes são marginalizadas e violadas na sua dignidade! As crianças, as adolescentes, os jovens são o presente da esperança, são a esperança: não permitamos que seja extinta, mas cultivemo-la com paixão!»
 
A dimensão ecológica não foi esquecida: «Dom da terra, o diamante faz apelo à salvaguarda da criação, à protecção do meio ambiente. Situada no coração da África, a República Democrática do Congo abriga um dos maiores pulmões verdes do mundo, que deve ser preservado».
 
Este espantoso discurso não se refere apenas à RDC e à África. É um alerta para todos os que, em vez de a ajudarem, a exploram.
 
Francisco não pode renunciar! Precisamos do sal e da luz do seu contínuo testemunho de alegria e de indignação.

 

Fr. Bento Domingues, O.P.  

5 Fevereiro 2023


[1] Alfredo Teixeira (coord.), Religião, Território e Identidade. Contextos Metropolitanos, Imprensa Nacional, Colecção Estudos de Religião, 2022
[2] Cf. Is 58, 7-10
[3] Cf. Mt 5. 13-16
[4] Citado por José A. Pagola, in Religión Digital, 30.01.2023. Cf. Paul Evdokimov, El Amor Loco de Dios, Narcea Editora, 1990
[5] De civitate Dei, IV, 4
 
05/02/2023 observações (0)

Presença Dominicana em Angola

Novo vídeo com o testemunho do Fr. José Nunes, OP nos 40 anos da presença dominicana em Angola (Waku-Kungo).

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