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Comentário às Leituras Dominicais (Dez. 2021) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Dez. 2021)      por fr. José Nunes, op - ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino

 
5 Dezembro – 2º Domingo do Advento - Ano C

 

Que texto maravilhoso do profeta Baruc: anuncia um mundo completamente novo, em que não haverá mais luto nem aflição e onde a criação inteira exultará harmoniosamente como no paraíso, com paz, justiça, misericórdia, alegria e união entre os povos. E esse mundo novo será dom de Deus, sem dúvida, mas nunca deixa de aparecer o convite a que nós colaboremos com Deus na sua construção.

Na carta aos Filipenses, Paulo alegra-se com as maravilhas que Deus vai operando nos cristãos daquela cidade de Filipos, na Macedónia, e exorta ao crescimento na ciência, discernimento e santidade e pureza irrepreensíveis «até ao dia de Cristo Jesus». Que quer isto dizer? Simples: os primeiros cristãos viviam com muito entusiasmo a promessa da ‘parusia’, isto é, da segunda e definitiva vinda de Cristo à terra. Então, tinham de estar em advento permanente, a vida era toda ela um advento, uma espera em compromisso do encontro com Cristo.

O evangelho de Lucas apresenta-nos a figura de João Baptista, o precursor, o que vem antes de Jesus e alerta as pessoas para prepararem a sua vinda, para estarem prontas a acolhê-l’O. Essa tarefa é descrita com a imagem do aplanar as veredas, o endireitar dos caminhos… Nunca é demais repetir que quem vem até nós é Deus, Ele é que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro; mas a nós é pedido o não impedir a sua chegada e entrada nos nossos corações, nomeadamente com a recusa categórica de toda a injustiça, soberba, altivez, maldade.

29/11/2021 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino


Repetir o Novo Testamento é Sepultá-lo

 


  

1. A grande maioria dos católicos conhece, da Bíblia, os pedacinhos que se lêem nas celebrações dominicais, seja do Antigo seja do Novo Testamento. Isto significa que a maioria não conhece a Bíblia como tem sido estudada pela exegese moderna.

Sob o ponto de vista da sua investigação científica, protestantes, católicos e ortodoxos frequentam, cada vez mais, os métodos modernos de exegese, importantes para não se cair em hermenêuticas arbitrárias. Isto não quer dizer que os pressupostos confecionais não contem, e ainda bem. Neste sentido, não se pode continuar a dizer que a Bíblia é propriedade de qualquer uma das confissões religiosas.

No entanto, continua a ser verdade que o conhecimento das Escrituras é muito reduzido, apesar dos esforços que alguns movimentos desenvolvem para alargar esse conhecimento.

Lamento imenso as homilias que contam pouco com os métodos e os frutos da exegese, mas irritam-me ainda mais aquelas que gastam o tempo a repetir as leituras. Essas repetições são o recurso da preguiça e acabam por anestesiar a atenção da assembleia. Era melhor insistir na formação de bons leitores. Os pregadores da repetição tornam-se os coveiros da novidade crepitante do Evangelho.

Há excepções admiráveis. São fruto de quem não lê só esses pedacinhos da Bíblia, escolhidos e repetidos de três em três anos. As que me parecem admiráveis, são as realizações de quem lê a Bíblia à luz dos acontecimentos e os acontecimentos à luz da interpretação bíblica. São duas dimensões da escuta que se cruzam e se iluminam mutuamente.

Espero do Sínodo de toda a Igreja que as homilias deixem de ser um exclusivo do clero. É fundamental que os leigos assumam a sua vocação de testemunhas do Evangelho todo, na vida toda, e que sejam escolhidas as pessoas que revelem carisma de comunicação, isto é, competência e graça da pregação.

Conheci, ao longo da vida, grandes servidores do Evangelho ao povo cristão, abrindo-o ao diálogo inter-religioso e à escuta de todas as pessoas de boa vontade, crentes ou não. Tenho de confessar que, neste momento, quem mais me interpela é o estilo do Papa Francisco.

A sua homilia do Domingo passado – dia de Cristo Rei – não repetiu as leituras. Extraiu das leituras, sem violência ou falsos concordismos, um guião vivo para a caminhada dos jovens. Não restringiu a sua intervenção a esse movimento, mas a todos os jovens e não apenas aos jovens porque ele confessa-se um sonhador: Sou um sonhador deslumbrado pela luz do Evangelho e aguardo ansiosamente as visões da noite. E quando caio, encontro em Jesus a coragem de lutar e de ter esperança, a coragem de voltar a sonhar. Em todas as idades.

2. Não ocultou as duas imagens que recolheu dos textos da Missa. A primeira, do Apocalipse de São João, antecipada pelo profeta Daniel na primeira leitura, é descrita pelas palavras: Eis que vem com as nuvens(1). É uma referência à vinda gloriosa de Jesus como Senhor e fim da história. A segunda imagem é a do Evangelho: Cristo está diante de Pilatos e diz-lhe: Eu sou rei(2). Faz-nos bem, queridos jovens, parar e contemplar estas imagens de Jesus, no momento em que iniciamos o caminho para a Jornada Mundial da Juventude de 2023 em Lisboa.

Vamo-nos concentrar na primeira: Jesus que vem com as nuvens. Ao dizer isto, podia pensar-se que iria fugir para as nuvens, fugir do real da vida concreta. Não. Esta imagem faz-nos perceber que a última palavra da nossa existência virá de Jesus, não de nós. Ele é aquele que cavalga as nuvens e que, nos céus, manifesta o seu poder(3): ele é o Senhor, o Senhor que vem do alto e nunca desaparecerá, é aquele que resiste a tudo o que passa, é a nossa confiança inabalável e eterna. Ele é o Senhor.

Esta profecia de esperança ilumina as nossas noites. Diz-nos que Deus vem, que Deus está presente, que Deus está a trabalhar e que Deus dirige a história para ele, para o bem. Ele vem com as nuvens para nos tranquilizar, como se dissesse: Não te deixo só quando a tua vida está envolta em nuvens negras. Estou sempre contigo. Venho para trazer luz e devolver serenidade.

Caros jovens, reparai nas visões da noite! Que significam? Ter um olhar luminoso, mesmo na escuridão. Não deixar de procurar a luz no meio das trevas que muitas vezes carregamos no coração e que vemos à nossa volta. Erguei os olhos do chão, não para fugir, mas para vencer a tentação de permanecer no chão dos nossos medos. É aqui que está o perigo: deixar que os nossos medos nos governem. Olhai para cima, levantai-vos! Já fiz eco deste convite na Mensagem(4) que vos dediquei, queridos jovens, para a caminhada deste ano.

Esta é a tarefa mais árdua, mas também a mais fascinante: levantar-se quando tudo parece estar a desmoronar-se; ser sentinelas capazes de ver a luz durante as visões noturnas; ser construtores entre os escombros – há tantos neste mundo, hoje, tantos – para poder sonhar. E esta é a chave para mim: um jovem que não é capaz de sonhar, coitadinho… envelheceu antes do tempo! Quem sonha não se deixa engolir pela noite, mas acende uma chama, uma luz de esperança que anuncia o dia seguinte. Sonhai. Sonhar é estar vivo e olhar para o futuro com coragem.

(…) Muitos dos vossos sonhos correspondem aos do Evangelho. Fraternidade, solidariedade, justiça, paz são os sonhos de Jesus para a humanidade. Não tenhais medo de conhecer Jesus. Ele ama os vossos sonhos e ajuda-vos a realizá-los. O cardeal Martini disse que a Igreja e a sociedade precisam de sonhadores que nos mantenham abertos às surpresas do Espírito Santo(5). É isso mesmo! Desejo que sejais um desses sonhadores!

3. A segunda imagem vem da própria celebração desse Domingo: Cristo Rei, com todos os equívocos que, ao longo dos séculos, lhe foram impostos. Jesus Cristo foi preso, acusado, interrogado, ridicularizado, condenado à morte e crucificado pela coligação de Herodes e Pôncio Pilatos, pelas nações pagãs e os povos de Israel(6). Segundo uma das interpretações aberrantes e de mais sucesso, todos esses actores estavam, no fundo, a executar uma peça urdida por um deus autocentrado: teria sido infinitamente ofendida a sua dignidade divina e para a reparar, era preciso uma vítima humana de alcance divino.

O Papa recusou esse caminho porque esse não era o seu Deus nem o seu Cristo. Recuperou, no entanto, a afirmação da identidade de Jesus perante Pilatos: Eu sou rei. Mas o seu reinado não é para oprimir, para fazer escravos. É para servir a liberdade, a justiça e o amor de todos para com todos. Esta determinação, coragem e liberdade impressiona. Nem Deus nem Cristo reinam pela força. Não têm exército. Eu sou rei, mas deste reino do amor. Eu sou rei, do reino de quem dá a própria vida pela salvação dos outros, de todos.

Na homilia, Bergoglio não sepultou os textos bíblicos. Fez deles uma luz para iniciar os caminhos da Jornada Mundial da Juventude, mas é das novas experiências dos caminhos que nascerá a luz da esperança.

 

  

Fr. Bento Domingues in Público, 28/11/2021
 
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1 Ap 1,7; Dn 7,13
2 Jo 18,37
3 Cf. Sl 68, 5. 34-35
4 Refere-se à Mensagem para a XXXIII Jornada Mundial da Juventude (2021-2023)
5 Night Conversations in Jerusalem. On the Risk of Faith, p. 61
6 Act 4, 8-12
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Clausura do Jubileu OP

Clausura do Jubileu OP - ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino
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