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Comentário às Leituras Dominicais (Junho 2019) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Junho 2019)      por fr. José Nunes, op - Instituto S. Tomás de Aquino

 

9 Junho – Solenidade de Pentecostes – Ano C

A primeira leitura, do livro dos Actos, narra o Pentecostes, a descida do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus. Os judeus já celebravam o Pentecostes desde há séculos. Era a festa que comemorava a chegada do povo de Israel ao Monte Sinai, onde Deus dera a Lei a Moisés. Agora, o Pentecostes cristão traz uma nova Lei: é o Espírito. Já não há que andar muito preocupado em cumprir leis, mesmo se apelidadas de ‘lei de Deus’: o cristão é aquele que, pela força do Espírito, só tem uma lei a cumprir – amar. «Ama e faz o que quiseres», disse-nos São Agostinho.

São Paulo, nesta importante passagem duma carta aos cristãos de Corinto (na Grécia), lembra que o Espírito Santo vive e ‘trabalha’ no íntimo de cada cristão em duplo sentido: concorre para a união de todos os cristãos e, simultaneamente, garante a diversidade e a pluralidade entre os mesmo cristãos. É o mesmo Espírito que nos enche de amor uns pelos outros, é o mesmo Espírito que dá a cada um dom específico para que cada um contribua à sua maneira para o bem de todos.

E quanto ao Evangelho: ao contrário de São Lucas – que diz ter o Pentecostes acontecido 50 dias depois da Páscoa –, São João fala de um acontecimento único e simultâneo: Ressurreição, Ascensão e Pentecostes são um todo indivisível e, por isso, logo no dia da ressurreição, na sua primeira aparição aos discípulos, «Jesus soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo» (v.22). O importante a reter é, afinal, o que representa a vinda do Espírito sobre todos e cada um de nós: o Espírito Santo cumula-nos com muitíssimos dons e frutos e o evangelho de hoje fala-nos de alguns deles, nomeadamente a Paz, o Perdão, a Alegria.

 

 

 

08/06/2019 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - Instituto S. Tomás de Aquino


Santo António de Todos e para Tudo

 

1. Segundo o mito – esse nada que é tudo – os portugueses tão depressa se julgam os melhores do mundo, como os mais atrasados da Europa. Vivem entre a exaltação e a depressão. Procuraram fazer acreditar que a própria formação de Portugal obedeceu a um desígnio dos céus. Deram mundos ao mundo, uniram o Oriente e o Ocidente,  acabando sem mundo nenhum, salvo o da sua língua que não é pouco. Nunca se esquecem de observar que, na viagem de Colombo, as caravelas e a tripulação eram espanholas, mas quem as comandava era um português, Fernão de Magalhães!

Como escreveu Fernando Pessoa, em 1923, nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. Manuel Alegre, em O Canto e as Armas, pede mais realismo: «Porque tiveste o mar nada tiveste./ Não te percas buscando o que perdeste: /Procura Portugal em Portugal».

O Presidente da República sabe que, em 2019, estamos numa Europa e num mundo com outros mitos, outras ingenuidades e perigosas ameaças.

Procurou, no Dia de Portugal deste ano, algum equilíbrio no nosso imaginário: «Não podemos nem devemos esquecer ou minimizar insatisfações, cansaços, indignações, impaciências, corrupções, falências da Justiça, exigências constantes de maior seriedade ou ética na vida pública». No entanto, «é bom que se saiba que não é só um secretário das Nações Unidas ou um presidente do Euro-grupo, ou um director-geral na Organização Internacional das Migrações ou uma equipa vencedora num certame desportivo com maior notoriedade internacional» que merecem destaque. Não nos esgotamos com António Guterres, Mário Centeno, António Vitorino. «São todos os dias, cá dentro e lá fora, líderes sociais, científicos, académicos, culturais ou empresariais, muitos dos quais nós nem sabemos quem são, até que chega a notícia de que um português ganhou um prémio de melhor investigador ou, ainda, que uma portuguesa foi considerada a melhor enfermeira num país estrangeiro ou um artista foi celebrado noutro continente». Contra o conhecido pessimismo, o Presidente tem um aforismo sempre disponível: «Quando somos muito bons, somos dos melhores dos melhores».  

2. No plano religioso, não nos podemos queixar. Apesar da mediocridade do nosso catolicismo institucional, consta que, em 2018, cinco milhões visitaram Fátima. Julgava-se que era um símbolo da nossa iletrada alienação e do nosso atraso rural condenado com a desertificação do interior do país. Fátima mostra, pelas metamorfoses da sua religiosidade, uma notabilíssima capacidade de renovada mobilização individualizada. Ninguém pode controlar os peregrinos e as suas motivações. Não é o Altar do Mundo, mas como António José Saraiva gostava de sublinhar, Fátima transformou-se na maior peregrinação do Ocidente com ecos em muitos mundos.  

       Não temos muita sorte com o número de santos canonizados, mas demos ao mundo alguns dos mais originais e influentes. São João de Deus (1495-1550), nascido em Montemor-o-Novo, viveu em Granada e foi pioneiro nos cuidados da saúde mental das populações mais pobres, inspirando a fundação da extraordinária Ordem dos Irmãos Hospitaleiros e suas ramificações.

 3. Santo António nasceu em Lisboa. Baptizado com o nome de Fernando recebeu, em religião, o de António. Não teve vida longa. Morreu em Pádua com apenas 36 anos (1195-1231)! Foi canonizado um ano depois. É, dos primeiros portugueses célebres, o mais viajado: do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foi para Marrocos e dali para a Sicília, passando por Argel e Túnis. Além de Itália, em várias cidades, percorreu o sul de França. Hoje, é venerado fervorosamente em todos os continentes. Existe um mapa inacabado da geografia internacional dos seus devotos.

Quando se repete que foi o martelo dos hereges cátaros, esquecemos que foi sobretudo o martelo contra os hierarcas corruptos da Igreja que responsabilizou pelo êxito das heresias do seu tempo.

Trabalhou, com os seus veementes sermões, na reforma da Igreja medieval. Atribuiu à corrupção do alto e baixo clero o surgimento dos movimentos contra a Igreja: «Pode porventura um cego guiar outro cego? (...) O cego é o prelado ou o sacerdote perverso, privado da luz da vida e da ciência (...). Mas porque se dá isto? Porque as sentinelas da Igreja são todas cegas, privadas da luz da vida e da ciência; são cães mudos que têm na boca a rãzinha do diabo e, por isso, não podem ladrar contra o lobo».

Não foi, no entanto, pela reforma do clero que ficou conhecido, a não ser dos estudiosos. Que teria este português para se tornar o santo universal mais querido e mais popular?

São Francisco de Assis é um santo poeta que só precisava de ser a inocência da terra e do céu para nos comover pelos séculos dos séculos. Os devotos reconheceram em Santo António jeito para tudo, para todos e em todas as situações. Até suporta que o castiguem quando não consegue satisfazer caprichos loucos. É uma pessoa de família, um bom médico de clínica geral sempre disponível, um vigilante protector dos animais, um veterinário em casos urgentes e o sistema mais barato de perdidos e achados. Nas orações dos seus devotos é sempre tratado como Meu querido Santo António.

Segundo a lenda, Nossa Senhora entregou-lhe, clandestinamente, o Menino Jesus. Só lho roubaram em Alvalade, embora no Páteo Alfacinha se mostre um bocado cansado. O doce Jesus de Antero, de Eça, de Junqueiro, a eterna criança de Caeiro-Pessoa contrasta com o muito sofrido Cristo espanhol. 

Se o melhor do mundo são as crianças, como disse o nosso poeta, são também elas as grandes vítimas das guerras, da fome, das migrações e da pedofilia.

O Menino de Santo António é o símbolo de todas as crianças que ninguém adoptou.

 

 
 
Fr. Bento Domingues in Público, 16/6/2019
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[1] Santo António de Lisboa, Doutor Evangélico, Sermões dominicais e festivos (edição bilingue Latim e Português), introdução e notas de H. Pinto Rema, vols. I-II, Porto, 1987; Francisco da Gama Caeiro, Santo António de Lisboa, INCM, Lisboa, 1995, 2 Vols. Aquilino Ribeiro dedicou-lhe um romance: Humildade Gloriosa, Bertrand, Lisboa, 1984; Agustina Bessa-Luís escreveu a sua biografia literária: Santo António, Guimarães, 1973.
[2] Para satisfazer a curiosidade das habilidades de Santo António e dos seus devotos, ver a edição imaginária do Diário de Notícias 1864 (09.06.2019) acerca de António. Um santo que não é só nosso. Afinal, o português mais famoso do mundo.
[3] O Mensageiro de Santo António, em todos os números, tem uma secção dedicada a pedidos e agradecimentos a este santo atento a tudo.
[4] Eduardo Lourenço, Fernando Pessoa. Rei da Nossa Baviera, Gradiva, 2008, 155-165
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