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Comentário às Leituras Dominicais (Maio 2018) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Maio 2018)      por fr. José Nunes, op - Instituto S. Tomás de Aquino

 

20 Maio – Solenidade do Pentecostes – Ano B

As celebrações e leituras deste domingo estão polarizadas pela vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos e, afinal, a sua infusão em todos os discípulos de Jesus (entre os quais nos incluímos).

O Espírito Santo é o próprio Deus em nós. É a força ou energia ou princípio de vida, verdadeiramente divina e poderosa, em nós. E que terá sempre dois tipos de efeito nas nossas pessoas e vidas: por um lado, transforma cada um de nós, interiormente, santificando-o, dando-lhe coragem, alegria, paz interior; por outro lado, é bondade que transborda e se abre ao serviço generoso e gratuito dos outros, em amor puro e ajuda.

Aquelas duas dimensões ou efeitos do Espírito de Deus em nós estão bem presentes na passagem de hoje do livro doa Actos: os Apóstolos, com a força divina, saem da clandestinidade, perdem o medo, ganham sentido de vida e alegria; por outro lado, imediatamente começam o serviço aos outros, neste caso iniciam a tarefa evangelizadora a toda a humanidade (simbolizada na enorme quantidade e diversidade de línguas).

Paulo, na carta aos coríntios, lembra que o Espírito Santo anima cada cristão para um serviço específico aos outros e para que o resultado seja sempre o bem comum, a comunhão profunda entre todos. Além disso, Deus concede-nos esse maravilhoso dom a todos: o cristianismo é uma religião universal, Deus acompanha e quer salvar todos e cada um dos seres humanos, independentemente da sua raça, religião, cultura ou condição socioeconómica.

Quanto ao trecho do Evangelho, notemos uma diferente catequese entre Lucas e João: Se é verdade que São Lucas, no livro dos Actos dos Apóstolos, coloca o Pentecostes 50 dias depois da Ressurreição (daí, até, o nome de ‘Pentecostes’), São João coloca tal realidade (a vinda e habitação do Espírito de Deus em nós) logo no dia da Ressurreição. Pouco importam as ‘cronologias’ porque, como sabemos, são interesses catequéticos que as determinam! O importante a reter é a mensagem, e essa é sempre a mesma: Deus está connosco, o seu Espírito vive dentro de nós, isso traz-nos uma imensa alegria, conduz ao perdão e reconciliação, à santificação de cada um, mas também é ‘empurrão’ dado a cada cristão: todo o discípulo é enviado ao serviço dos outros, para continuar a missão de Jesus – Ele que também fora um enviado do Pai!

 

 

23/05/2018 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - Instituto S. Tomás de Aquino


Quando o Pentecostes acabar é o fim

 

1. "O animal corre, e passa, e morre. E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / O pássaro voa, e passa, e morre. E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / O peixe nada, e passa, e morre. / E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / O homem come, e dorme, e morre. E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / Acende-se o céu, apagam-se os olhos, resplandece a estrela. / E aqui em baixo é o frio, e lá no alto é a luz. / Passou o homem, desfez-se a sombra, libertou-se o cativo. / Vem, espírito, vem, por ti chamamos." [1] 

O autor dos Actos dos Apóstolos diz que quando chegou o dia de Pentecostes – isto é, cinquenta dias depois da Páscoa – estavam todos os discípulos reunidos no mesmo lugar. Como disse na crónica do Domingo passado, se nada acontecesse de novo, continuava ali uma Igreja na sua prisão de medo, de gente pasmada, fiéis a um judaísmo tradicional, o judaísmo da fidelidade à letra que mata, e às interpretações infinitas do mesmo. Os Actos falam de algo insólito. Uma rajada de vento e línguas de fogo. O que teria sido aquilo? Estamos perante representações simbólicas.

Segundo uma narrativa antiga, a diversidade de línguas era fruto de uma maldição divina [2]. Era deus que não queria que os povos se entendessem, não fossem eles unirem-se contra ele. Um deus assustado com a criatividade humana.

Os factos até pareciam comprovar essa suspeita. O Pentecostes veio mostrar que era uma suspeita infundada. O que o Espírito de Deus mais deseja é o entendimento de todos os povos, sem anular a originalidade de cada um. Não lhe agrada a unicidade linguística, nem qualquer outra que tente dominar as possibilidades originais de cada povo. A dominação globalizada é a antítese do Espírito do Evangelho. Sempre que na Historia o nome de Cristo foi usado para impor uma cultura ou uma religião, traiu o que há de mais genuíno no Espírito de Pentecostes.

Existem, certamente, cidades que são património da humanidade, a diversos títulos. Entre nós, é comum referir-se a Jerusalém, a Atenas e a Roma como símbolos de uma cultura que soube unir, sem confundir, a religião, a razão e o direito. Sabemos que nunca foi uma história pacífica e linear. Mas aquilo que deve mover os cristãos é o espírito de convergência e não de arrogância. A distinção entre a fé, a razão e o direito deve permitir a sua coabitação pacífica, colaborante. Não existem, para os cristãos, cidades e povos mais santos uns do que os outros. Podemos e devemos rezar pela paz, mas também trabalhar pelo desenvolvimento da razão e do direito se queremos que a religião, a razão e o direito não sirvam para o que há de mais torto no mundo, a dominação dos mais fortes sobre os mais fracos.

2. Já abordámos, em crónicas anteriores, os atrevimentos do Espírito de Cristo. Para Ele, não há povos que são de Deus e outros que estão irremediavelmente perdidos. Por outro lado, como não é um espírito nivelador, suscita uma grande diversidade de carismas. Como não actua só no espaço eclesial, a Igreja, enviada a todo o mundo – Igreja de saída –, tem de estar atenta a tudo o que de bom vai acontecendo na sociedade, dentro e fora das religiões. Ele sopra onde quer, quando quer e como quer, sem pedir licença ao que antigamente estava escrito na Bíblia. Mas a liberdade do Espírito suscita na Igreja o espírito de liberdade, de criatividade. Foi para a liberdade que fostes libertados. Uma Igreja que recusa a inovação em nome do que sempre assim foi, do que está escrito nos textos do Novo Testamento, atraiçoa a sua missão. Como diz Tomás de Aquino, a letra sem Espírito, mesmo a do NT, mata!

Não se trata de recusar o estudo aturado, a exegese em todas as suas formas, dos textos do NT. Não se pode pensar que o Espírito de Cristo esgotou as suas capacidades e as nossas necessidades. Precisamos de rezar como os pigmeus, Vem, espírito, vem, por ti chamamos.

 3. Jacques Lacan tinha razão quando dizia que o cristianismo ainda não disse a sua última palavra. Com toda a objectividade, não se pode reduzir a sua história àquilo que atraiçoou o espírito do Nazareno. Semelhante a um grande rio, como diz Hans Küng, cuja nascente é das mais modestas, soube adaptar-se sempre a novas paisagens culturais. Sofreu derrotas estrondosas e profundas alterações. Esteve, muitas vezes, na origem de novas transfigurações da história do mundo.

O que é extraordinário é que esse Espírito conseguiu irromper sempre, apesar das falhas pessoais e das instituições, na vida daquelas e daqueles que não se contentaram com palavras e O seguiram na sua vida, de forma nova e inovadora, em fidelidade à graça que o Baptismo celebra e que a Eucaristia alimenta. 

A verdade do cristianismo não é um encadeado de ideias ortodoxas para conhecer e debater, um credo, mas uma verdade que faz viver, transfigurar a existência. O que lhe interessa não é a produção de uma história exterior de beleza e cultura. O fruto dos dons do Espírito Santo são as pessoas que consentem que as suas vidas sejam verdadeiras obras de arte, pela alegria que deram a quem precisava de uma mão estendida e de um sorriso.

O cristianismo não disse a última palavra. S. Pedro, no sermão do Pentecostes, mostrou porquê ao lembrar uma profecia que não está esgotada: derramarei o meu Espírito sobre todo o ser vivo. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões [3].

O Papa Francisco tem feito um esforço enorme para que esta profecia continue a realizar-se. Uma das coisas em que mais insiste com os jovens é que eles devem ser pessoas criativas e de rebeldia, inconformados com o mundo que temos. Quando se lhes pede para que sejam muito ajuizados, Bergoglio pede-lhes que sejam muito atrevidos. Mas esse atrevimento, em vez de ser dirigido para a repetição da estupidez, seja criador de sonhos. Uma das invenções da juventude é a descoberta da sabedoria dos avós e daqueles que foram arrumados em casas de tristeza. Aconselha-os a irem cantar e dançar com e para quem ainda pode rir e alegrar-se.

Se o Pentecostes é a abertura, a partir do concreto, a todos os mundos, a todos os povos de todas as línguas e culturas, sem esse Espírito ficaremos atados aos projectos de quem pensa que todo o mundo é seu e que precisa de levantar muros físicos, técnicos, económicos e culturais para perpetuar a sua dominação.

 

Fr. Bento Domingues                                                                           in Público, 20/5/2018

 

[1] Pigmeus, África Equatorial (trad. de Herberto Helder)
[2] Gn 1, 9
[3] Act 2

20/05/2018 observações (0)

Exposição de Arquitectura

Exposição de Arquitectura - Instituto S. Tomás de Aquino

EXPOSIÇÃO

'Dominicanos: Arte e Arquitectura Portuguesa. Diálogos com a modernidade'

A inauguração ocorrerá no dia 14 de Abril, às 16h:00, no Convento de S. Domingos de Lisboa

e estará aberta ao público até ao dia 10 de Junho.

(Folheto AQUI) + (Site do Evento AQUI)

08/03/2018 observações (0)

Clausura do Jubileu OP

Clausura do Jubileu OP - Instituto S. Tomás de Aquino
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Fotos Conferências Timothy Radcliffe

Fotos Conferências Timothy Radcliffe - Instituto S. Tomás de Aquino
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