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Comentário às Leituras Dominicais (Out. 2020) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Out. 2020)      por fr. José Nunes, op - Instituto S. Tomás de Aquino

25 de Outubro – 30º Domingo do Tempo Comum – Ano A 

 

Creio que se pode afirmar, honestamente, que a Bíblia é um livro verdadeiramente humanista. É certo que há passagens bíblicas de difícil enquadramento nesta perspectiva humanista (por exemplo, quando Deus é associado a violências, irados castigos ou aparentes e arbitrárias preferências de uns face a outros…) e, portanto, até de difícil aceitação por um cristão (que só tem a lei do amor); mas a Bíblia testemunha de uma progressiva (embora lenta e durando um milénio) purificação da compreensão e imagem de Deus e, quando chegamos ao Novo Testamento, o humanismo bíblico atinge o seu ponto mais alto, o seu climax. 

Mas já no Antigo Testamento temos maravilhosas passagens a testemunhar desse interesse pelo bem de toda a pessoa humana. No trecho que hoje lemos, do livro do Êxodo, aparece-nos a defesa dos fracos, dos órfãos, das viúvas, dos estrangeiros, dos pobres… Aparece também o apelo à solidariedade e generoso empréstimo ao necessitado (e sem juros). Israel tinha, de facto, inúmeras leis sociais, concretizadas em especial nas instituições do sábado, ano sabático e ano jubilar.

Uma vez mais, então, haveria que reconhecer no cristianismo uma religião com uma dimensão antropológica e uma responsabilidade social muito profundas. Ser amigo de Deus é ser amigo dos homens. E tudo isto decorre da lei do AMOR – único mandamento que Jesus nos deixou e nos é recordado no evangelho de hoje. Nas culturas pode haver muitas leis e tradições, na própria Igreja pode haver muitos mandamentos… Mas se alguém amar a Deus e ao próximo, certamente acertou no mais importante e do qual dependerá tudo o resto. Daí derivará, também, a importantíssima Doutrina Social da Igreja.

E foi isto que perceberam e assumiram os cristãos de Tessalónica – de que nos fala a segunda leitura. Eles tornaram-se imitadores de Cristo, eles construíram uma comunidade de vida no amor e, por isso, para além de experimentarem, eles próprios, a vida divina no amor, eram missionários dessa Boa Nova do amor, tornando-se exemplo para todos os demais. Porque se é certo que a evangelização carece do anúncio pela palavra profética, o testemunho de vida no amor, afinal, é o melhor e mais eficaz método missionário, a melhor forma de difundir o evangelho de Jesus.

 

23/10/2020 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - Instituto S. Tomás de Aquino


Uma Estranha Caixa de Correio

 

1. O livro de António Marujo, A Caixa de Correio de Nossa Senhora(1), é, para mim, o grande livro do ano sobre o fenómeno religioso, ao desvendar, por uma investigação inédita e rigorosa, um arquivo até agora desconhecido e indispensável para conhecer o Coração que move os peregrinos da maior peregrinação do Ocidente.

O autor é bem conhecido. Integrou o núcleo fundador do Público, onde esteve até Janeiro de 2013, sendo responsável pela informação religiosa. É autor premiado de várias obras no âmbito dessa vasta temática e director de 7Margens, Jornal digital dedicado a dar a conhecer o que acontece no mundo das religiões e as formas complexas como marcaram e marcam a história vivida dos crentes.

O seu profundo conhecimento da problemática de Fátima já tinha sido bem demostrado(2). Entretanto, ao procurar um tema novo sobre a questão religiosa durante a Primeira Guerra Mundial, no que a Portugal dizia respeito, reencontrou-se com o segredo dos segredos de Fátima, de um modo surpreendente, narrado por ele próprio.

Em 2016, num encontro com jornalistas, responsáveis do Santuário de Fátima aludiram aos milhões de mensagens que se encontravam depositadas no Arquivo e que tinham começado a ser tratadas dois anos antes. Era uma mina inexplorada das expressões mais individualizadas, genuínas e vividas da profunda confiança em Nossa Senhora de Fátima. Como diz António Marujo, «nessas mensagens entram todos os temas: fé e descrença, amores e desamores, saúde e dinheiro, afectos e sexualidade, escola e juventude, pais e filhos, Igreja e política. E também, claro, as preocupações com a guerra e a paz, com a justiça»(3)…

Antes de continuar, cumpre-me ressaltar a sensibilidade histórica e o extremo cuidado, manifestados pelo Santuário de Fátima, ao arquivar todo esse imenso correio. É algo raro e espantoso. É verdade que existia a tradição dos santuários conservarem os ex-votos, manifestações de agradecimento pelas graças recebidas, em expressivas pinturas de arte popular. Isto, antes da moda comercial dos miseráveis bonecos de cera que lhes sucederam.

Ainda há pouco tempo, era frequente encontrar, em muitos santuários, mensagens comoventes de pedidos urgentes de socorro e de agradecimento, escondidas debaixo de algumas imagens de santas e santos de mais confiança. Por incompetência de alguns irresponsáveis iam parar ao caixote do lixo, interpretadas como meros signos da ignorância supersticiosa. Um mínimo de antropologia religiosa teria salvado documentação importante para a história das mentalidades de diversas épocas da nossa história colectiva.

2. Feito este parêntesis, que podemos encontrar no Correio de Nossa Senhora, em Fátima?

Como diz, de forma sintética, A. Marujo «nele, encontramos muitos mistérios e declarações, pedidos de saúde ou de emprego para o próprio ou outras pessoas, amores proibidos e confessados, crimes escondidos, desilusões amorosas, angústias existenciais, orações pela paz no mundo e pela “conversão dos pecadores” ou da Rússia, pelo fim da guerra colonial, na sua dimensão política (a derrota dos “terroristas” ou do “comunismo”) ou mais pessoal (o regresso de um filho, um namorado, um neto mobilizados )…

«Se em cada mensagem há um mistério, todas juntas elas revelam muito do que era o país, há poucas décadas, marcado ainda pelo analfabetismo, pobreza e falta de protecção social. E revelam, também, muito do que foi e é importante na vida de milhões de portugueses e estrangeiros: os pedidos para que filhos, netos, noivos ou namorados regressem da guerra, sãos e salvos; que o pai deixe de bater na mãe; que o marido deixe a vida dissoluta; que a mulher deixe de ser ofensiva e aceite a família do cônjuge; que os pais se dêem bem; que se consiga o emprego necessário; que se encontre um noivo ou um namorado desejado; que se resolvam problemas de saúde ou se obtenha a passagem nos exames para os quais (pouco ou nada) se estudou…»(4).

Uma apresentação deste tipo, embora conste do livro, seria um atentado contra o seu conteúdo, extremamente rico e concreto, se fosse para substituir a sua indispensável e íntegra leitura. Sem esta, não se consegue sentir o que é a verdadeira emoção religiosa dos apaixonados de Fátima. Este correio exprime e testemunha a individuação afectiva da experiência espiritual e que pode passar despercebida na movimentação das grandes peregrinações.

3. Eu enjoei muito cedo das pregações que escutava em Fátima pela repetição obsessiva de algumas narrativas assustadoras dos pastorinhos.

Havia um gosto perverso em insistir numa original visão do Inferno, quando o mundo do século XX se tinha transformado em guerras infernais, atiçadas por diabos bem conhecidos com farda militar ou sem farda.

Insistia-se em que Fátima era puro Evangelho, mas o que se pregava não se parecia nada com o da alegria do Novo Testamento.

Perguntei-me muitas vezes se era possível, aos responsáveis pela orientação pastoral de Fátima, abandonar esse reino da repetição para se interrogarem sobre as potencialidades, ambiguidades e implicações de uma religião de multidões de peregrinos, em regime de precária autogestão. Não seria possível tornar esse vasto mundo num foco de autêntica evangelização plural e culturalmente criativa?

É verdade que cada peregrino sabe de si, das razões que o movem, o que vai agradecer e pedir para semear esperança nos incertos caminhos da vida. Vivemos, no entanto, num mundo sem horizontes de paz, perdido em novas guerras, ódios, violências, pobreza e abandono, à mistura com populismos insensatos e redobradas lutas entre as grandes potências pela dominação mundial.

Henri Desroche sustentava que a utopia e a esperança são irmãs gémeas: na utopia, vive a esperança de uma outra sociedade; na esperança, vive a utopia de um outro mundo.

A religião de Fátima é alimentada por uma extraordinária voz subversiva, genuinamente feminina, no seio da Igreja, que une a utopia e a grande esperança(5): apesar de todas as incertezas, de guerras e suas destruições, o Coração vencerá.

A luta do Papa Francisco, para criar uma nova sensibilidade que reconheça o lugar fundamental das mulheres na Igreja, encontrou agora, em Fátima, um eco poderoso na pregação do novo Presidente da Conferência Episcopal, D. José Ornelas: «Acentuar o feminino e o materno não é apenas buscar um equilíbrio de poderes ou de influências na organização funcional da Igreja. Trata-se é de mudar de paradigma, de mudar o modo de pensar: o mundo não é de quem mais manda, é de quem mais constrói a vida. A liderança eclesial não está fundada sobre a ideia de poder, mas na vida, no cuidado e no serviço».

O confinamento, no Santuário de Fátima, não confinou a audácia da palavra.

 
Fr. Bento Domingues in Público, 18/10/2020
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1 António Marujo, A Caixa de Correio de Nossa Senhora, Temas & Debates, Círculo de Leitores, 2020.
2 António Marujo e Rui Paulo da Cruz, A Senhora de Maio, Temas & Debates, 2017
3 António Marujo, A Caixa de Correio de Nossa Senhora, p. 9
4 Contra capa
5 Magnificat: Lc 1, 46-56
18/10/2020 observações (0)
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Clausura do Jubileu OP

Clausura do Jubileu OP - Instituto S. Tomás de Aquino
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Fotos Conferências Timothy Radcliffe

Fotos Conferências Timothy Radcliffe - Instituto S. Tomás de Aquino
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