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Comentário às Leituras Dominicais (Out. 2019) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Out. 2019)      por fr. José Nunes, op - Instituto S. Tomás de Aquino

 

6 Outubro – XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C

Na leitura de Habacuc aparece mais uma vez a ideia de que Deus parece ausente diante dos nossos sofrimentos e insensível aos nossos pedidos de socorro. Há aqui que considerar duas realidades que se reclamam uma à outra: só na fé – confiança e abandono absoluto – se pode resistir às contrariedades da vida e, por outro lado, só resistindo se pode verificar que «vale a pena» ter fé…!
 
Dos conselhos a Timóteo para que tivesse um espírito de fortaleza e não de timidez, poderíamos e deveríamos extrair ilações para a vida e situação da Igreja neste nosso mundo. Cristãos perseguidos em tantas partes do mundo, a pagar mesmo a fé com a própria vida, Igreja muitas vezes injustamente criticada e incompreendida, atacada e desprezada… enfim, um sem número de situações onde somos todos chamados à esperança, confiança e a um espírito de fortaleza e não de timidez, ainda que sem armas na mão mas apenas com a força e beleza do evangelho que conhecemos e queremos dar a conhecer.
 
Todos precisamos, como falaram os apóstolos no evangelho de hoje, que Deus aumente a nossa fé! Ela é frágil e muitas vezes posta à prova. Por outro lado, a fé é uma questão de sobrevivência: sem ela, sem a crença, sucumbimos. Com fé, então, diante das ‘cruzes da vida’, não iremos revoltar-nos contra Deus, mas humildemente confiaremos e, mesmo sem ‘ver resultados’, acreditaremos. Não há motivos para pedirmos muitas explicações, somos servos inúteis, é bom ter consciência da nossa pequenez comparada com a grandeza infinita de Deus. Basta saber que Ele é bom, misericordioso, e nos ama loucamente.
06/10/2019 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - Instituto S. Tomás de Aquino


Teologia e Literatura

 

1. A fonte de toda a teologia cristã é o chamado Novo Testamento (NT) que, por sua vez, é uma inovadora interpretação da Bíblia Hebraica ou, como é usual dizer-se, do Antigo Testamento (AT). Hoje, encontramos todos os livros da Bíblia de épocas, autores, géneros literários e línguas diferentes, encadernados num só volume. Podem dar a ilusão de constituírem apenas um livro, quando a própria palavra Bíblia significa livros. É preferível, por isso, falar de teologias e não de teologia do AT ou do NT. A expressão muito usada, como diz a Bíblia, não pode indicar nada de muito preciso. 
 
Nessa biblioteca, coexistem, na teia contraditória das experiências humanas narradas, apresentações de Deus cheias de contrastes irredutíveis. O próprio Jesus diz, aos seus interlocutores rabínicos: disseram-vos, mas eu digo-vos. Sustentava muitas vezes o contrário do que vinha nas Sagradas Escrituras.
 
 Para quem tem uma noção de livros divinamente inspirados, como ditados de Deus, pode ser levado a pensar que Deus não se levanta todos os dias com a mesma disposição, pois são-lhe atribuídas afirmações que não batem certo umas com as outras. A inspiração divina acontece através de múltiplas e complexas mediações humanas. Quando se afirma que a Bíblia é palavra de Deus importa não esquecer que se trata de uma metáfora para dizer que aquela literatura, sem a referência ao Deus sem nome, seria impossível.
 
Pelo caminho da sua escrita poética, narrativa, romanesca, sapiencial, a Bíblia revela a profundidade e a complexidade que nenhum dilúvio poderá vencer. Como nota o Prof. José Augusto Ramos, “poderíamos por isso, dizer, sem qualquer intenção de sectarismo, que, em termos históricos e culturais, a Bíblia hebraica completa é a Bíblia cristã. Uma antologia literária que começa no Génesis e termina muito bem no Apocalipse(1).
 
Ao dizer que o terminal das virtudes teologais – fé, esperança e caridade - é Deus, mistério inabarcável, vemos que as mediações que O referem e procuram tactear são múltiplas. Não se pode crer sem querer e sem as interpretar. 
 
Sendo as fontes da teologia cristã uma antologia literária, surge a pergunta: que aconteceu para que a prática da teologia eclesiástica se tenha, em geral, divorciado da literatura viva dos poetas, dos romancistas e dos dramaturgos?
 
Teologia e literatura deixaram de se reconhecer mutuamente, são dois universos que não têm uma fronteira comum. Quem o disse foi um teólogo, P. Duployé, ao defender a célebre tese, La religion de Péguy, na Faculdade de Letras da Universidade de Estrasburgo(2). Depois desse acontecimento, foram bastantes os que se apaixonaram, simultaneamente, pela teologia e pela literatura(3). J.-P. Jossua O.P., tem trabalhado, há muitos anos, na prática e na construção da théologie littéraire, aquela que descobre afinidades entre teologia e literatura. Não são mundos justapostos. 
 
A literatura, no sentido moderno da palavra, não implica o apagamento de uma tensão com o absoluto. O romance testemunha, por vezes, questões nascidas de uma dúvida radical acerca da fé religiosa, mas também existem muitos romances que manifestam a presença de preocupações e experiências de ordem religiosa no coração da vida quotidiana, mesmo que o verdadeiro romance encerre sempre um carácter subversivo pela sua ironia e pluralismo. A teologia podia tirar daí o seu bem, no caso de se abrir à imaginação, à metáfora, à narração, respeitando a autonomia da literatura e resistindo à tentação de a instrumentalizar.
 
2. Manuel António Ribeiro escreveu um texto sobre as Reconfigurações de Deus na literatura moderna(4) que interessa a esta crónica. Afirma que é um dado facilmente verificável que se esvaneceram, desde há décadas, os escritores com a estatura dos franceses Mauriac, Péguy, Claudel, Bernanos, nomes que se tornaram referências de vulto, ao trazerem para a literatura uma tematização aderente ao mistério da existência humana, visto à luz do discurso teológico do catolicismo. Fora do espaço gaulês, Graham Greene e T. S. Eliot são outros exemplos representativos de uma tendência de sinal semelhante. Todavia, há muito que deixaram de ter grande acolhimento editorial os estudos críticos que enfatizam mais a vertente “cristã” ou “religiosa” do que a dimensão literária das obras.
 
Este articulista pensa, que se pode afirmar que depois da morte de François Mauriac (1970), a literatura entendida como veículo da “causa cristã” passou a ter uma presença pouco relevante na crítica literária. Isto não quer dizer que não persistam escritores em cujas criações transparecem imaginários e pressupostos de conteúdo cristão. Nenhum deles, porém, é identificado como escritor católico, nem sequer como escritor cristão. Eles próprios preferiam que se falasse de católicos que são escritores. A razão por esta preferência é muito simples. Não se deseja fazer da literatura uma ferramenta ao serviço de uma causa ideológica, seja ela qual for. 
 
Este estudo não esquece que ao lado e para além dessas cautelas e polémicas nunca deixaram de existir reflexões sobre o fenómeno literário, assentes na preocupação de discernir a componente religiosa como interrogação ou iluminação. Lembra, a este propósito, a grande obra de Charles Moeller, Littérature du XXe siècle et Christianisme (5 vol., 1953-1975).
 
3. Já existem muitas referências à dimensão religiosa e cristã na literatura portuguesa dos últimos séculos. Para superar o seu carácter fragmentário seria preciso um plano de investigação e de publicação que, para ser executado com êxito, exige uma ou várias equipes de estudiosos. A seara é vasta e os operários deste empreendimento são poucos e dispersos. Desde, por exemplo, Antero de Quental, Fernando Pessoa, José Régio, até Sophia de Mello Breyner, Agustina Bessa-Luis, Herberto Helder, Lídia Jorge, António Lobo Antunes, etc. existe um mundo literário que tem a ver com o fenómeno religioso e que não deve nem pode ser esquecido pelo mundo dos teólogos. 
 
Seria injusto não lembrar que contamos com alguns casos que uniram ou unem prática literária e prática teológica. Alfredo Teixeira estudou o caso emblemático de Frei José Augusto Mourão(5). José Tolentino Mendonça é o autor português de escrita de teologia literária mais conhecida e reconhecida. Esperamos que o cardinalato não o retire da sua vocação teológica e literária
 
Fr. Bento Domingues in Público, 6/10/2019
_____________
[1] Communio XXXI (2014/4), p.400
[2] Cf. M. D. Chenu, La littérature comme « lieu » de la théologie, RSCFT, Tome LIII, 1969, pp. 70-80.
[3] Cf. Revista Concilium, nº115 (1976/5) dedicado às relações entre teologia e literatura.
[4] Communio XXXI (2014/4), p.409-414
[5] A errante sonoridade de Deus. Revisitando José Augusto Murão, Communio XXXI (2014/4) p 415-428
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Clausura do Jubileu OP

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