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Comentário às Leituras Dominicais (Dez. 2022) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Dez. 2022)      por fr. José Nunes, op - ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino

 
4 de Dezembro – 2º Domingo do Advento - Ano A

 

A profecia de Isaías anuncia que o Messias virá como rebento novo do tronco de Jessé e terá espírito de sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, temor de Deus! Nós, cristãos, sabemos e acreditamos que Jesus veio a ser esse Messias durante tanto tempo esperado e que veio para julgar com justiça e defender os humildes e infelizes. E quando Ele vem e reina, sempre há paz, reconciliação, harmonia e fraternidade entre todos. É isso que esperamos… mas que também temos de construir com o Espírito de Deus em nós.

S.Paulo apela à paciência, consolação, esperança. E lembra que Deus nos acolhe para nós nos acolhermos uns aos outros. Daí a grande orientação espiritual para o nosso advento: esperar com esperança… no meio das vicissitudes da existência, e acolhermo-nos uns aos outros.

João Baptista pede conversão e o endireitar os caminhos do Senhor, justamente para que Ele possa vir até nós e entrar nos nossos corações e nas nossas vidas. E bem precisamos de nos converter: das nossas divisões, dos nossos egoísmos, das nossas guerras e invejas, das nossas injustiças e faltas de solidariedade, da nossa indiferença face ao mal que grassa em tanto lugar. E então o Reino, como dom maravilhoso, será visível e palpável entre nós. O Advento, aliás, é esta espera activa do Messias e do Seu Reino.

29/11/2022 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino


Tornar Possível o Advento da Paz

 


  

1. A crónica do Domingo passado tinha, por título, Advento de um mundo outro e podia acrescentar, por uma Igreja outra e por outro comportamento de todas as religiões e de todos os cidadãos religiosos ou não. É, com efeito, para um mundo outro que se devem dirigir todos os esforços dos cristãos que o sejam de verdade, isto é, pacificadores.

É, por isso, duplamente escandalosa a guerra entre os que se dizem cristãos. Esse escândalo obriga a interrogar todas as orações, todas as liturgias, todas as formas de culto. Sem ética são vazios os cuidados com a indispensável qualidade estética da liturgia dominical. O que verdadeiramente conta é o seu contributo para mudar a vida, em todas as suas dimensões, sob o ponto de vista individual e comunitário[1].

É o próprio profeta Isaías, a grande voz do Advento, que põe na boca de Deus a maldição sobre as práticas religiosas do seu tempo: «De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? Estou farto de holocaustos de carneiros, da gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes.       Quando me viestes prestar culto, ao pisardes o meu santuário, quem reclamou de vós semelhantes dons?       Não me ofereçais mais dons inúteis: o incenso é-me abominável; as celebrações lunares, os sábados, as reuniões de culto, as festas e as solenidades são-me insuportáveis.       Abomino as vossas celebrações lunares e as vossas festas; estou cansado delas, não as suporto mais.       Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos; podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.      

«Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Deixai de fazer o mal,       aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas.       Vinde então e entendamo-nos: mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve; mesmo que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã»[2].

Perante os conflitos que surgem entre grupos, países e continentes, quais serão os melhores caminhos para instaurar e defender a paz? Parece evidente que o país agredido tem o direito e o dever de se defender. O pacifismo incondicional pode implicar uma traição. No entanto, é um imperativo ético procurar sempre a substituição da violência pelo diálogo, pelo reconhecimento mútuo. Toda a ajuda internacional deve estar orientada para que os agressores e os agredidos reconheçam que o caminho da guerra não constrói a paz.

É evidente que os fabricantes e comerciantes de armamento não estão interessados na paz. Deles só se pode esperar a agudização da guerra e o seu prolongamento. Para esses negócios, a paz é uma ameaça.  Os caminhos de todas as formas de diálogo, a recusa da vingança e das represálias continuam a ser o coração da paz.

2.       Não há soluções prontas a servir para as questões do relacionamento entre os seres humanos e destes com a natureza. É de espantar que, depois de tanta experiência humana, de tantos séculos, de tantas religiões, de tantos programas económicos, políticos e sociais, ainda nos encontremos tão longe da realização dos melhores desejos, dos melhores sonhos. No entanto, o problema do Advento é o da esperança resistente: não desistir, não se resignar.

A representação bíblica do tempo é feita de encantamento e de desencanto. Mesmo na simbólica apresentação da criação, um cenário paradisíaco para o ser humano – homem e mulher – este acaba por desfigurar tudo a ponto de imaginar Deus arrependido de o ter criado. O dilúvio e a arca de Noé dizem o laço entre a purificação e a esperança resistente[3]. O ser humano não está feito, vai-se fazendo e desfazendo. Nada é fatal.

A liturgia deste Domingo situa-se num sonho messiânico de puro encantamento: «Brotará um rebento do tronco de Jessé e um renovo brotará das suas raízes.       Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor.       Não julgará pelas aparências nem proferirá sentenças somente pelo que ouvir dizer;       mas julgará os pobres com justiça e com equidade os humildes da terra; ferirá os tiranos com os decretos da sua boca e os maus com o sopro dos seus lábios.      

«A justiça será o cinto dos seus rins e a lealdade circundará os seus flancos.       Então o lobo habitará com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos e um menino os conduzirá.       A vaca pastará com o urso e as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha como o boi.       A criancinha brincará na toca da víbora e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente.      

«Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte, porque a terra está cheia de conhecimento do Senhor, tal como as águas que cobrem a vastidão do mar.       Naquele dia, a raiz de Jessé, estandarte dos povos, será procurada pelas nações e será gloriosa a sua morada»[4].

3. A utilidade de um poema é ser um poema e este é muito belo. Pouco me importa se o classificam como uma fábula ou uma parábola. Não parece destinar-se a fundamentar a universalidade de um sistema vegetariano, mas aquilo que, na natureza, é um absurdo – tornar todos os carnívoros em herbívoros – é a verdadeira condição dos seres humanos: viverem em perfeita harmonia com a natureza e entre si. O sonho de um equilíbrio absoluto da natureza significa a conquista de um equilíbrio que os seres humanos devem conseguir se não quiserem fazer deste mundo um inferno.

A afirmação de uns não se faz à custa da negação dos outros. Este poema, este desejo, mediante a elaboração de uma fábula futura, traduz a essência da vida humana: Fratelli Tutti. As pessoas têm mil formas de se tornarem irmãos.

A própria história europeia do século XX testemunha que, depois de duas guerras devastadoras, a partir de 1945, foi possível viver um período de paz por um tempo tão longo, como o nosso continente nunca havia conhecido em toda a sua história. É mérito, em grande parte, de uma primeira geração de homens políticos do pós-guerra: Churchill, Adenauer, Schumann, De Gasperi, Spaak.

Estes grandes políticos imaginaram e conseguiram o que parecia impossível. Só olharam para trás para dizerem o que não queriam. Era o Advento de um mundo outro, para todos, que os seduzia. E, agora, voltamos à guerra.

Segundo o Evangelho, João Baptista vem dizer-nos que não estamos irremediavelmente perdidos[5]. Não basta, no entanto, invocar o Espírito de Cristo e repetir, com o livro do Apocalipse, Amém, vem Senhor Jesus! Ele vem, mas não é para dispensar a nossa conversão a uma nova forma de viver, de rezar e de trabalhar. É connosco que Deus quer fazer novas todas as coisas[6]. As guerras só sabem destruir.

 

 

Fr. Bento Domingues, O.P. 

 

4 Dezembro 2022


[1] Rafael Gonçalves, Mistagogia Poética do Silêncio na Liturgia, AO Liturgia, Braga, 2022

[2] Is 1, 11-18

[3] Gn 2 – 5

[4] Is 11, 1-10

[5] Mt 3, 1-12

[6] Ap 21 e 22

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